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Versisognanti

Dobradiça de chumbo

Sob o arco de cascalho prensado
uma junta recolhe o óleo dos caminhões,
gota que não cai mas se alarga
como um mapa de vinagre e piche.

Os cartazes perderam as setas,
resta a haste que vibra na lama
enquanto a urtiga restringe a borracha
de uma roda deixada pela metade.

Não se para se falta a margem,
mas aqui o ar conserva o metal
de freadas desvanecidas no fosso,
o sabor de casca queimada.

Dois cabos saltam o vazio
sem tocar as folhas de sabugueiro,
trazem choques que ninguém escuta
rumo a uma periferia que se desfaz.

Quem atravessa não olha para o chão,
se segura firme à própria jaqueta,
contudo a ferrugem escreve nos calcanhares
a direção de um retorno cego.

Explicação

O ponto de partida do texto é um lugar de passagem subtraído à habitual retórica da viagem: não a plataforma ferroviária ou o passo montanhoso, mas o interstício negligenciado sob um viaduto rodoviário. Este espaço liminar encarna a transitoriedade pura, um não-lugar onde os fluxos se cruzam verticalmente sem nunca se encontrarem verdadeiramente. A ideia norteadora reside na capacidade deste vaso artificial de reter os vestígios involuntários do movimento alheio, transformando o descarte numa geografia autônoma. O trânsito não é celebrado como descoberta ou aventura, mas registrado na sua dimensão material de atrito contínuo entre infraestrutura e solo, revelando como a passagem humana deixa depósitos corporais e químicos capazes de redefinir a paisagem marginal e a nossa própria percepção.

As imagens principais concentram-se na materialidade bruta dos componentes industriais em contato com elementos biológicos resistentes. Encontramos assim a junta que recolhe a graxa dos caminhões, descrita visualmente como um mapa de vinagre e piche, metáfora que equipara a acidez química à ideia de uma cartografia informe e involuntária. A urtiga que aperta uma roda abandonada e as folhas de sabugueiro roçadas pelos cabos tensos representam a tenacidade vegetal que prolifera precisamente onde o homem não tenciona parar. O metal das freadas e a casca queimada introduzem percepções sinestésicas olfativas e gustativas insólitas, enquanto a ferrugem que escreve nos calcanhares dos transeuntes objetiva a marca indelével que o ambiente negligenciado devolve a quem crê atravessá-lo sem consequências.

O desenvolvimento estrófico segue uma progressão precisa, da observação do solo em direção ao horizonte e finalmente em direção à figura humana. A primeira estrofe circunscreve o embasamento material do arco, onde se acumula o resíduo líquido dos transportes. Na segunda quartina, o olhar alarga-se sobre o mobiliário viário degradado, registrando a perda das indicações e a convivência forçada entre vegetação espontânea e restos de borracha. A terceira estrofe define a natureza inóspita do vazio, traduzindo o movimento dos veículos superiores em sensações minerais e térmicas depositadas no ar. A quarta estrofe eleva a perspectiva rumo às linhas elétricas esticadas para o exterior. A estrofe final introduz finalmente o transeunte, colhido em sua apressada defesa corporal mas inevitavelmente marcado pelo contato com este território intermediário.

O registro lexical é sóbrio, calibrado sobre termos precisos e desprovidos de ornamentos estetizantes, hauri-ndo na esfera técnica, rodoviária e botânica. Palavras como junta, piche, haste, urtiga e sabugueiro ancoram o texto a um realismo escabroso mas fortemente evocativo, evitando cuidadosamente a linguagem gasta da lírica sentimental. As combinações sintáticas procedem com naturalidade, sem forçamentos arcaicos ou inversões artificiosas, privilegiando verbos de contato e tensão tais como recolhe, restringe, saltam e desfaz. A elisão é empregada rigorosamente no respeito da prosódia italiana contemporânea, favorecendo um falado denso e enxuto. O efeito global resulta do cotejo nítido entre substantivos concretos, capazes de gerar uma ressonância poética através da mera exatidão nominal das coisas descritas.

Sob o perfil rítmico, a composição adota versos hendecassílabos alternados com heptassílabos e hendecassílabos abertos, conferindo ao passo uma cadência firme mas não rígida. O andamento sonoro é pontuado por consoantes ásperas e agrupamentos oclusivos e vibrantes, visíveis em nexos como arco, prensada, piche e fosso, que restituem fonicamente a rugosidade do cascalho e do metal oxidado. As cesuras internas secundam pausas lógicas de respiração, evitando rimas fáceis em favor de consonâncias e assonâncias internas subtis, como o vínculo entre setas e lama ou entre terra e calcanhares. Esta armadura métrica assegura uma tensão constante, onde cada verso sustenta o peso da linha seguinte sem deslizar na cantilena, secundando o ritmo mecânico e surdo da infraestrutura.

No seu todo, o texto reflete sobre a nossa ilusão de impermeabilidade em relação aos lugares que consideramos meros corredores funcionais. Quem atravessa a dobradiça de asfalto e pilares crê-se imune ao contexto, fechando-se na jaqueta para negar o ambiente circundante, contudo a interação ocorre igualmente a um nível profundo e invisível. O encerramento confere à ferrugem uma faculdade ativa e quase escritural: a matéria corrosiva marca os corpos e impõe-lhes uma rota involuntária, a do retorno cego. A travessia revela-se, portanto, como uma experiência de contaminação recíproca, onde a paisagem de fronteira não se limita a sofrer o nosso trajeto apressado, mas incide silenciosamente sobre a carne e o passo de cada um a sua própria verdade obstinada.

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