---
title: "Colheres de giz"
description: "Uma tarde de infância na cozinha da avó ressurge através dos resíduos calcários e dos gestos cotidianos da manipulação doméstica."
url: "https://www.versisognanti.com/pt/colheres-de-giz/"
language: "pt"
type: "poem"
author: "Versisognanti"
published: 2026-10-24
keywords: ["cozinha","infância","poeira","giz","objetos"]
translations:
  it: "https://www.versisognanti.com/it/cucchiai-di-gesso/"
  en: "https://www.versisognanti.com/en/chalk-spoons/"
  es: "https://www.versisognanti.com/es/cucharas-de-yeso/"
  fr: "https://www.versisognanti.com/fr/cuilleres-de-platre/"
  de: "https://www.versisognanti.com/de/kreideloeffel/"
---

# Colheres de giz

Meu avô pulverizava o giz sobre a mesa da cozinha
para consertar os pés mancos do armário de nogueira.
Eu recolhia os fragmentos brancos dentro de uma xícara
acreditando ser açúcar restante de uma festa distante.

A poeira grudava nas palmas úmidas dos meus anos
formando crostas semelhantes a crostas de pão velho.
Ninguém me repreendia por aquela brincadeira de cal e silêncio
que deixava impressões espectrais sobre a toalha xadrez.

Hojereencontro esse resíduo seco nos cantos da mente
como um fóssil de cozinha pobre e de tardes longas.
A colher de folha-de-flandres ainda bate contra o fundo vazio
chamando um cheiro de giz molhado pela chuva.

E permanece intacto aquele branco que já não branqueia nada
mas marca o perímetro exato de uma ausência doméstica.
Fecha-se assim o círculo de uma matéria que se esfarela
deixando as mãos lisas e frias como pedra polida.

## Explicação

O ponto de partida deste poema reside numa memória de infância aparentemente menor, mas densamente afetiva, ligada aos espaços domésticos dos avós. Não se trata de uma evocação nostálgica ou edulcorada do passado, mas sim da inquirição sobre um detalhe material preciso, ou seja, a poeira de giz usada para pequenos trabalhos de carpintaria caseira. Este fragmento biográfico é assumido não como mero dado autobiográfico, mas como chave de acesso a uma dimensão sensorial perdida, onde a fronteira entre a brincadeira infantil e a pobreza material dos gestos cotidianos se torna tênue e fecunda. A memória não atua aqui como refúgio consolatório, mas como instrumento crítico capaz de desenterrar a consistência física das coisas que nos formaram, devolvendo dignidade poética a uma ação humilde e repetitiva que marca a iniciação do sujeito no mundo dos adultos e de suas reparações imperfeitas.

As imagens centrais do poema giram em torno da concretude tátil e visual do giz, da folha-de-flandres e da poeira doméstica. O poeta escolhe evitar qualquer abstração lirizante para se concentrar em elementos tangíveis como os pés mancos do armário de nogueira, a xícara usada como recipiente e a toalha xadrez manchada de branco. Particularmente original resulta a aproximação entre a poeira de cal e as crostas de pão velho, uma comparação que une o âmbito da construção civil à subsistência alimentar, típica de um mundo camponês ou popular onde cada elemento material participava da mesma economia de sobrevivência. Também a colher de folha-de-flandres que bate contra o fundo vazio constitui uma invenção visual e acústica precisa, capaz de evocar a solidão daquelas tardes através de um som seco e metálico que contrasta com a friabilidade impalpável da poeira branca depositada sobre os móveis e sobre as mãos da criança.

O desenvolvimento estrutural articula-se em quatro estrofes que seguem uma precisa progressão temporal e espacial, movendo-se do detalhe inicial da ação até a sedimentação psicológica final. Na primeira estrofe, assiste-se à cena originária com o gesto do avô e o equívoco da criança que troca o giz por açúcar. A segunda estrofe aprofunda a tomada de posse física desta matéria através do contato com as palmas úmidas e a descrição das impressões sobre a toalha. A terceira estrofe opera o salto temporal em direção ao presente da escrita, onde o resíduo seco é rastreado nos cantos da consciência adulta através do apelo do olfato e do som metálico. A quarta e última estrofe cumpre a síntese lírica, transformando o branco da cal em uma metáfora da ausência e da lisura definitiva, fechando o círculo da experiência com uma imagem de fria e consciente aceitação.

O léxico empregado recusa deliberadamente qualquer preciosismo ou arcaísmo literário, privilegiando um italiano natural, aderente às coisas e enraizado na língua de uso mas sustentado por uma rigorosa contenção métrica. São usados termos cotidianos como armário, xícara, palmas, crostas, folha-de-flandres, inseridos em contextos sintagmáticos desestabilizadores, mas sempre justificados pela necessidade expressiva. Não aparecem adjetivos supérfluos ou ornamentais; cada modificador tem uma função precisa de especificação física ou cromática, como no caso de mancos, brancos, espectrais, úmidos, seco. Esta aderência lexical à realidade material impede que a poesia escorregue para o sentimentalismo, mantendo o discurso num registro médio-alto que valoriza a precisão descritiva como a única verdadeira forma de conhecimento e de respeito em relação ao passado.

Do ponto de vista rítmico e sonoro, a poesia adota um verso longo e estendido, predominantemente decassílabo e de notável fluxo narrativo, desprovido de rimas mas percorrido por densas assonâncias e consonâncias internas que lhe conferem uma musicalidade subterrânea. A ausência de rima emparelhada ou alternada desloca a atenção para o equilíbrio das estrofes e a queda dos acentos, que simulm o andamento de um discurso reflexivo mas intensamente controlado. Os enjambements frequentes, como entre o segundo e o terceiro verso da primeira estrofe ou entre o primeiro e o segundo da terceira, quebram a regularidade métrica para secundar o movimento do pensamento que cava na lembrança. O som global resulta seco, às vezes áspero nos encontros consonantais ligados às dentais e labiais, refletindo a natureza física e poeirenta do tema tratado.

O significado global da poesia dissolve-se num fecho fortemente significativo que reitera a impossibilidade de remediar o tempo através do retorno à infância. O branco do giz já não serve para branquear ou reparar, mas torna-se o perímetro de uma ausência que não perdoa. A conclusão confia à metáfora da pedra polida o sentido de uma maturidade existencial alcançada, onde as mãos do poeta, outrora sujas de cal infantil, são agora lisas e frias, marcadas pelo distanciamento mas também pela limpidez de uma visão já adulta. A infância não é um paraíso perdido a ser reconquistado, mas um depósito de matéria bruta que a escrita finalmente soube decifrar, transformando os resíduos poeirentos de uma cozinha pobre num monumento frágil e duradouro à memória e à perda.
